Nas últimas cinco cirurgias que fez em junho na Beneficência Portuguesa, o Prof. José Pedro teve como visitantes os Drs. Emile Bacha, professor da Universidade de Harvard e cirurgião do Children's Hospital, em Boston, e Joseph A. Dearani, cirurgião da Mayo Clinic, referência mundial em correção de Ebstein. Tudo está descrito em artigo publicado na edição do Journal of Thoracic and Cardiovascular Surgery (The cone reconstruction of the tricuspid valve in Ebstein's anomaly. The operation: early and midterm results - Volume 133, págs 215 a 223).
Início - De novembro/1993 a agosto/2002, 21 pacientes com anomalia de Ebstein da valva tricúspide, com idades variando de 20 meses a 37 (média: 23) anos, foram submetidos à nova técnica de plastia da valva tricúspide, onde o megafolheto anterior tricúspide é desinserido da parede ventricular e do anel valvar, total, ou quase totalmente, transformando-o num cone, cujo vértice permanece fixo na ponta do ventrículo direito e cuja base é suturada ao verdadeiro anel tricúspide, inclusive na região septal, após o ajuste, com uma plicatura do anel, ao tamanho da base do cone.
Resultados - Houve um (4,7%), óbito hospitalar, causado por baixo débito cardíaco em portador de miocardiopatia causada pela hipóxia crônica. O tempo médio de seguimento foi de 4 anos e os ecocardiogramas recentes mostraram boa morfologia do ventrículo direito e valva tricúspide com discreta ou mínima insuficiência em 18 pacientes e moderada em 2. Em dois dos três portadores de feixe anômalo foi possível localizá-los e seccioná-los no ato cirúrgico. Não ocorreu bloqueio atrioventricular em nenhum dos pacientes.
Conclusão: A técnica utilizada foi eficiente para a correção da insuficiência tricúspide e a restauração da morfologia do ventrículo direito, e aplicável para todos os tipos anatômicos de Ebstein, exceto o tipo D da classificação de Carpentier, explica o Prof. José Pedro. Até a década de 70, a troca valvar foi o tratamento de escolha, porém associada a sérias complicações, como arritmias, trombose e disfunção de prótese, além de alta taxa de mortalidade.
Os resultados obtidos com este método no grupo, do ponto de vista anatômico e funcional, são encorajadores, e o caso de óbito precoce desta série não está relacionado à técnica cirúrgica, mas ao estado pré-operatório do paciente, o que incentiva a indicação mais precoce da cirurgia, antes que se deteriorem as funções do ventrículo direito e esquerdo. É provável que com esta técnica, ao dispensar o uso de prótese, as indicações cirúrgicas sejam ampliadas para os pacientes assintomáticos ou pouco sintomáticos, a fim de prevenir o aparecimento de complicações tardias, tais como arritmia e disfunção ventricular.
Esta técnica reconstrói também a porção septal da valva tricúspide, onde é usada sutura delicada e superficial nas proximidades do sistema de condução atrioventricular. Em cinco pacientes, algumas fenestrações foram criadas no folheto, para facilitar a entrada de sangue no ventrículo direito. Em dois casos houve necessidade de transferir músculos papilares mal posicionados para as proximidades do ápice do ventrículo direito. Não foi utilizado anel protético para valva tricúspide nesta série de pacientes.
Houve preocupação em se deixar uma comunicação interatrial valvada, permitindo a passagem do sangue apenas da direita para a esquerda, conseguido com o fechamento parcial do forame oval e da comunicação interatrial com técnicas apropriadas e abertura oblíqua na borda superior da fossa oval nos casos de septo interatrial íntegro. Procedimentos cirúrgicos associados à plastia da valva tricúspide foram: secção de feixe anômalo em 2 pacientes, ventriculoseptoplastia em um e ampliação da via de saída de ventrículo direito com enxerto valvado (monocúspide) de pericárdio bovino e plastia de valva mitral em um outro.
Quem é - Prof. José Pedro é formado pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, em 1973, com residência médica no Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual-1976, aperfeiçoamento em Special Fellow, Cirurgia Torácica e Cardiovascular (1978), Associate Staff Department Of Thoracic And Cardiovascular (1980) e Clinical Fellow Em Cirurgia Torácica e Cardiovascular na Cleveland Clinic Foundation (1979). Atualmente é médico-cirurgião cardiovascular da Real e Benemérita Sociedade de Beneficência Portuguesa. |